quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Cio



Não só estás. És!
Muito mais do que vejo. Bem além do que ouço. És o meu todo sentir.
Cheiro louco. Arroubo.
Hibridez de fogo. Gozo...
Sanidade insensata.
Castidade impura.
Tecedura da morte...
Tramoia dos anjos!
Tua voz eu tenho. Teus dons. Teu tempo. E o porvir...
Tez d'alma rubra. Espúria!
Urdidura da vida...
Acalanto de sonhos.
Meus passos rumam rumo a ti. Volvem meus olhos às pegadas dos teus pés...
Nos caminhos coloridos com gotas encarnadas da esperança que te vi brotar...
E crescerá!
Como relva verde orvalhada nas manhãs fecundas
Como a aurora busca dourar o entardecer sombrio
E o donzelo pensar moço olhando mudo altar
Brejeiro
Fagueiro
Flama dos deuses
Luz da alma
Arrepio
Calafrio
Dor serena
cio...


sábado, 18 de junho de 2016

Plantio Infértil



Não é só a mentira que nos trás enganos. Muitos nos vêm trazendo flores, disfarçados de palavras de estímulo e até vestidos de carinho.
Dentre as formas de enganar, a pior é aquela que se faz sob o manto bonito dos sorrisos largos, adornados por olhares luminosos.
Quando levamos alguém a crer numa inverdade; quando usamos o terreno da boa-fé alheia para plantar convicções equivocadas; quando cativamos a ilusão; quando nos apresentamos diferentes do que realmente somos; quando plagiamos a essência dos outros.
Enganamos também quando, enfim, plantamos expectativa infértil em terras adubadas com esperança, sabendo que, ali, nada germinará.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Nó na Garganta

Sentia um misto de calor, cansaço e desânimo hoje quando cheguei à casa de um José, a última de uma sequência de visitas na zona rural sob um sol escaldante. 57 anos, 9 filhos, 5 deles menores e em casa, além da mulher, mãe de 8, sua "segunda companheira para a vida toda".
Não tem "casa de tijolo", energia elétrica, água encanada, fogão a gás, nem salário, nem conhece as comodidades "desse povo da cidade". Sequer assina o próprio nome, "os menino tão estudano, mas esse povo daqueles tempo que eu nasci não se preocupava com isso não. ..".
... E "no assunto de meio de vida" lhe perguntei se tinha bolsa família...
- Precisa não, dona. Nós aqui tem aquela rocinha de feijão, o garapé onde inda tira uns peixinho e as 6 cabra que dá leite. Deixa pros mais pobrezim que precisa mais...
Horas depois saí de lá... nem sentia mais tanto calor, nem cansaço, nem desânimo... e pra desfazer o nó da garganta só me restou secar os olhos...e agradecer!

domingo, 29 de maio de 2016

Tempestades tardias



... E eu, por ai, como eu mesma e só eu, espalho sonhos.
Jornadas silentes, estradas sem rumo.

Destinos incertos. Por certo.

Colho flores que adornaram tempestades tardias, sobre asas de algodão.
O ontem se foi com o hoje no bolso do terno de amanhãs sem tempo.

Sob as asas, pés na terra. De paz. De todos os seres. De todas as dores.

E de sonhos. De todas as cores.

Verdades


A verdade não muda de cara. Ainda que sob quilos de maquiagem, fartas pinceladas de verniz e embrulhada com papel de seda.
A verdade não assume os traços que lha quisermos dar.
Ela é sempre única.
Pode não estar na linha de frente. Às vezes se recusa ao primeiro olhar, à palavra dita, às intenções declaradas.
Recôndita, seu brilho pode ser resguardado da luz, sim, inclusive sob sorrisos esbranquiçados e olhares iluminados, carregados de amizade pífia.
E mesmo quando tentarmos, por covardia, insegurança, comodismo, medo ou vaidade, dar-lhe uma máscara matizada de preto e branco, ela estará lá, em seu pedestal, imutável, colorida de carmim.
Muitos tentarão dar-lhe lampejos de outra cor. Daquelas em que, não raro, preferimos enxergar.
A ingenuidade não a atenua. Aduba de breu todos os pontos de cor.
Faz-se escuro. Até que o tempo lhe traga à luz.

Negritude



Minha pele não tem raça. Minha alma é sem cor.
Meu nome é Maria.
E meu sangue é de gente.
Somente.

Falando de estrada...


Às vezes uma grande reta. N'outras, íngreme e sinuosa. Em qualquer caso, os obstáculos serão frequentes, te impondo atenção e cautela permanentes.
Ao lado, uns te sorrirão felizes, de outros os prantos rolarão, enquanto não poucos te passarão completamente desapercebidos. Ao largo, também.
Uns, muito apressados, tentarão te atropelar, outros, nem tanto.
Alguns te implorarão ajuda, outros lha oferecerão, prazerosamente, até.
Teu sol sempre achará o ocaso, mas estejas certo de que ele voltará, logo que a aurora chegar.
As intempéries te imporão derrapadas e até pausas longas, com recheio de aprendizado, que te servirá de combustível para continuares o percurso.
Por vezes serás desafiado, mas a escolha será sempre tua... Uns te empurrarão ladeira abaixo, mas outros te darão a mão e até acharão leve te carregar nas costas.
É possível evitar choques frontais e engavetamentos, mas alguns porão tua paciência e perícia à prova.
Ultrapassagens? Ah! Muitas serão inevitáveis, mas em algumas delas, és tu quem ficarás para trás.
E tu seguirás teu rumo, sob sol escaldante ou chuva forte, brisa mansa ou tempestade.
Sim, espinhos te ferirão, mas encontrarás muitas flores também. E, de todos, lembrarás conforme o valor que quiseres lhes dar.
E, ao final, ao chegares ao destino, poderás ficar, simplesmente.
Ou olharás para trás e sentirás vontade de começar tudo... de novo.

Falando de estrada. Pra dizer sobre a vida.